Matar por um abafador

Em 1992, o Lusitânia Expresso rumou a Timor-Leste com uma lista de passageiros constituída por estudantes, jornalistas, activistas dos direitos humanos e até o ex-Presidente da República Ramalho Eanes. Os militares indonésios, a potência ocupante da pequena ilha, impediram que o navio entrasse nas suas águas territoriais, mas não tiveram a “coragem” de tocar nos civis que tentavam chegar a Dili. O massacre que a ditadura dos generais indonésios não se atreveu a perpetrar foi ontem levado a cabo pelas forças especiais do Estado de Israel, uma democracia de cariz ocidental, membro de pleno direito das Nações Unidas e legitimamente integrada na “comunidade internacional”.

A imagem é caricata: um vídeo divulgado na página oficial das IDF (Israeli Defense Forces, as forças armadas israelitas) lista as “armas” (a expressão é retirada do título do vídeo) com que os comandos israelitas foram recebidos ao abordarem, em águas internacionais, um navio carregado com 10.000 toneladas de ajuda humanitária destinada aos habitantes da Faixa de Gaza: duas fisgas, facas de cozinha, martelos, paus, uns quantos CDs (?!?) e… um saco de berlindes. Contra este perigoso (e variado!) arsenal que, como prova o vídeo, chegou a abrir o sobrolho a um soldado (!), os militares israelitas abriram fogo com as suas metralhadoras sobre os “terroristas” que seguiam a bordo (entre os quais crianças, um prestigiado activista dos direitos da população árabe residente em Israel ou uma Prémio Nobel da Paz irlandesa), matando duas dezenas de civis estrangeiros e ferindo muitos mais.

Imaginem a situação do ponto de vista oposto: uma ONG israelita enviava um navio cheio de mantimentos para os curdos da Turquia. O governo de Ankara bombardeava o navio em águas internacionais, chacinando vinte dos seus passageiros. Como reagiria a comunidade internacional?

A atitude de terrorismo de Estado assumida por Israel não é nova: conta há mais de meio século com a aprovação tácita da comunidade internacional, ainda a braços com a “má consciência” deixada pelo seu papel conivente no Holocausto. Os dirigentes ocidentais recusam-se a aceitar que, por mais que fechem os olhos às barbáries do governo de Israel, isso não lavará a memória dos seis milhões de judeus exterminados na Europa ao longo da Segunda Guerra Mundial. Esta semana os embaixadores de Israel um pouco por todo o mundo serão chamados pelos governos dos países que os acolhem para um “puxão de orelhas”, como sucedeu há poucos meses depois de o governo de Tel Aviv ter dado mais uma prova de que é intocável: agentes secretos da Mossad utilizaram passaportes ingleses, australianos e de outras nacionalidades ocidentais, falsificados, para se infiltrarem no Dubai e assassinarem um dirigente do Hamas. Pouco depois, Benjamin Netanyahu desafiou o seu aliado tradicional, os Estados Unidos, anunciando a expansão da construção de colonatos israelitas na véspera de uma visita à Casa Branca.

Amanhã Israel voltará a matar civis inocentes, como sempre com total impunidade. Até quando?

Advertisement

O teu comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: