De quadrúpedes e aulantes, ministras e estudantes

« Cheguei cedo, a tempo de ver os adultos levarem os seus pequenitos à escola. Que visão! De mão dada, vinham de todas as direcções: rapazes e raparigas com os pais cubanos de bonés de basebol, ‘sikhs’ de barba e turbante, latinas de saltos altos e unhas pintadas, mulheres indonésias cobertas com véus, avós chinesas de casacos à Mao e ténis, hindus com pintas vermelhas na testa. Havia um ambiente épico, todos aqueles imigrantes, aqueles pais esperançados que tinham conseguido chegar a Queens e depois procurado a escola, o objectivo da sua viagem, para que os filhos tivessem uma vida melhor. »
– Sam Swope, “Eu Sou Um Lápis” (ed. Sinais de Fogo)

Eu tive a sorte de ter tido uma professora de Português que me incutiu o gosto pela leitura – não dos livros obrigatórios do programa, mas daqueles que eu escolhesse querer ler. Eu tive a sorte de ter tido um professor de Matemática que chamava “quadrúpedes” e “aulantes” (“vocês vêm às aulas, mas não estudam!”) aos alunos, fazendo-nos rir com a sua severidade, no meio de co-senos e hipotenusas. Eu tive a sorte de ter tido um professor de Filosofia que quase só falava de astronomia. Eu tive a sorte de ter tido uma professora de História que começava o programa no séc. XX e depois ia recuando, porque era mais importante falar “dos vivos do que de um rei morto” (e que era linda de morrer e se casou com o professor de Filosofia). Eu tive a sorte de ter tido um professor de Contabilidade que gostava mais de falar de bits e bytes do que de balanços e amortizações. Eu tive a sorte de ter tido uma professora de Economia que nascera em Moçambique e falava mais da fome no mundo do que da Bolsa de Nova Iorque.

Provavelmente, todos estes professores – que, em grande parte, moldaram a pessoa que eu sou hoje – chumbariam na avaliação de professores nos moldes propostos pela Ministra da Educação. O professor de Queens incluído. E no entanto… estou seguro que valem muito mais do que os que se classificariam à sua frente.

Post motivado por um post do Letra Pequena, de onde roubei descaradamente a citação. E dedicado às duas professoras que tenho na família próxima, bem como aos professores que me fizeram crescer – independentemente de cumprirem ou não o estipulado nos programas.

2 opiniões sobre “De quadrúpedes e aulantes, ministras e estudantes”

  1. Qualquer professor que se preocupe verdadeiramente com os alunos e não queira apenas despachar matéria chumbará e esses são aqueles de que nos recordamos! A ver vamos o que vai acontecer.

  2. Na família havia uma professora que corrigia testes de francês aos serões. Mesmo com visitas. E eu pensava: não quero ser professora. Por voltas e mais voltas vou no meu 36º ano. Gostei do que fiz. Mas ao momento sinto que vou sair muito desencantada. Obrigada João pelas tuas palavras.

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