Carta aberta a Barack Obama

Caro Barack,

Agora que a tua eleição como Presidente dos Estados Unidos acendeu uma luz de esperança um pouco por todo o mundo, começando nas ruas de Manhattan e do Harlem mas continuando pelas de Lisboa e Paris, Jerusalém e Gaza, Rangoon e Tbilisi, Brazzaville e Havana, Bagdade e Kabul, venho pedir-te que tomes como tuas, a partir do dia da tua posse, em 20 de Janeiro, dez das prioridades do mundo que te rodeia:

 

  1. Tira as tropas americanas o mais rapidamente possível desse segundo Vietnam em que se está a transformar o Iraque. Os iraquianos já são crescidinhos para saberem o que querem do seu país. Enquanto por lá andares, fecha a prisão de Abu Grahib e pede oficialmente desculpa aos iraquianos pelas tristes cenas que os soldados que agora comandas levaram a cabo entre as suas paredes.
  2.  

  3. Por falar em prisões, desmantela ainda a prisão americana de Guantánamo, em Cuba, onde continuam presos centenas de seres humanos, a esmagadora maioria sem culpa formada, e todos eles sem direito a uma defesa condigna no quadro do Direito Internacional e da Convenção de Genebra. Aproveita para fechar a base aérea em que se situa a prisão. Os cubanos saberão provavelmente transformá-la num bonito resort turístico.
  4.  

  5. Enquanto estás a tratar de Guantánamo, aproveita para pôr fim ao anacrónico bloqueio político-económico a Cuba. És um rapaz inteligente e, provavelmente, já percebeste que o bloqueio contribui mais para perpetuar a ditadura na ilha (unindo o povo aos seus decrépitos líderes) do que para acelerar a sua democratização. Já agora, aproveita para aprender alguma coisa sobre como se cria e financia um dos sistemas de saúde mais avançados e democráticos do mundo, com (o pouco) dinheiro dos cofres estatais. A lição pode dar-te jeito para aplicação no teu próprio quintal.
  6.  

  7. Ao assinares o decreto que porá fim ao bloqueio a Cuba, não feches a caneta: aproveita para assinares todos os tratados internacionais pendentes, desde o Protocolo de Quioto ao que institui o Tribunal Penal Internacional. Mas não te limites a pôr assinaturas em papéis: já que o teu país tem uma fome crónica de liderança na esfera internacional, coloca-o na primeira linha das questões ambientais e de pacificação da arena internacional.
  8.  

  9. Aproveitando o espírito de concórdia que te assaltou enquanto estavas a dar à caneta, aproveita para dares um saltinho ao Médio Oriente e convenceres os teus aliados israelitas de que um estado palestiniano independente é uma inevitabilidade. Um corte estratégico no apoio militar e financeiro aos rapazes de Tel Aviv também é capaz de os ajudar a abrir os olhos para a realidade. Acredita que a Al-Qaeda, o Irão, o Sudão, a Síria e outros membros daquilo que antes da tua eleição se chamava o “Eixo do Mal” começarão a pensar duas vezes antes de atacarem ou financiarem ataques contra um aliado dos seus irmãos palestinianos. Até os norte-coreanos são capazes de se sentir solitários do lado errado da barreira e começarem a desmantelar o seu programa nuclear (poupando-te uma guerra chata e, potencialmente, “vietnamizante”), agora que se torna mais difícil encontrar quem o financie ou contrabandeie plutónio para dentro das suas fronteiras.
  10.  

  11. Se, com todos estes esforços, o teu espírito de conciliação ainda não se tiver esgotado, utiliza o remanescente para fortificares o papel dos Estados Unidos na ONU: envia os soldados que tiraste do Iraque para as missões de paz da Organização e investe o dinheiro que deixaste de mandar para Israel no financiamento das suas Agências, a começar pelo Programa Alimentar Mundial e pela UNICEF, por exemplo. Aproveita ainda para fazer lobby para a democratização do Conselho de Segurança, abrindo-o a países económica e demograficamente representativos como a China, Índia, Japão, Brasil, África do Sul e, porque não, alguns dos teus aliados europeus. Se estiveres para aí virado, aproveita ainda para acabar com o vergonhoso direito de veto de que dispõem os actuais cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Talvez assim seja possível pressionar os teus amigos russos a retirarem as forças ocupantes que mantêm na Chechénia, na Ossétia do Sul e na Abkázia, entre outras repúblicas com nomes mais ou menos obscuros mas que os teus assessores devem saber apontar no mapa.
  12.  

  13. Se te começarem a faltar fundos para financiares todo este frenesim de actividades, corta os escandalosos subsídios aos ricos e gordos agricultores norte-americanos. Estou certo de que conseguirás usar o teu poder de influência sobre os aliados europeus para os convenceres a fazer o mesmo do outro lado do Atlântico. Juntos, estaremos a salvar literalmente a vida a milhões de pequenos produtores africanos e às famílias que sustentam, que terão assim acesso ao mercado internacional em condições justas. Vais ver a quantidade de governos corruptos e déspotas que cairão sem que tenhas que enviar um único soldado para países com moscas, apenas pelo poder que uma barriga cheia confere aos habitantes dos seus países.
  14.  

  15. Por esta altura os cofres da tua Administração devem estar a explodir com os lucros gerados pelos novos canais comerciais que acabas de abrir com os países menos desenvolvidos da grande Aldeia Global em que vivemos. Permite que te sugira uma aplicação digna para esse dinheiro fresquinho: porque não o investes na pesquisa de vacinas e tratamentos para o cancro e a SIDA? Já agora, não te esqueças de desbloquear os fundos que o teu antecessor na Casa Branca negou à investigação científica, nomeadamente no campo das células estaminais.
  16.  

  17. “Mas e a crise económica que afecta o mundo e que, se me descuido, me custará a reeleição daqui a quatro anos?”, perguntarás tu por esta altura. Meu caro, não há truques de magia que permitam desfazer em quatro anos toda a porcaria que fizemos nos últimos quarenta, mas permite-me mais uma vez o atrevimento de te oferecer uma sugestão: começa por cortar a dependência do teu país em relação ao petróleo, investindo em energias limpas e renováveis. Vais ver como as bolsas vão reagir rapidamente e no sentido que todos desejamos quando virem que, a pouco e pouco, nos iremos libertando do colete de forças em que os rapazes da OPEP nos têm mantido ultimamente. Ah, e és capaz de ter um bónus inesperado: duvido que o presidente Hugo Chavéz se aguente muito tempo no poder sem os petrodólares que financiam o programa social do seu governo. Aliás, és capaz de ver o mesmo efeito reproduzir-se na Arábia Saudita, Irão (sempre poupas outra guerra!) e outros países com governos quase tão transparentes como o petróleo que os financia.
  18.  

  19. Se conseguires fazer metade do que te pedi acima, asseguro-te de que já terás assegurada não apenas a reeleição em 2012 como também um lugar de destaque na História mundial. Mas se quiseres ainda colocar uma cereja no topo do bolo, guardo-te uma última medida capaz de te garantir o Prémio Nobel da Paz que, de qualquer forma, já merecerias plenamente: abole a pena de morte em todos os 52 Estados que constituem essa nobre Nação, dando assim um exemplo aos camaradas chineses. Repara como será emblemático que este decreto saia da caneta do Presidente que alguns queriam assassinar ainda antes de ser eleito…

 

Não te roubo mais tempo pois, se por acaso me deres ouvidos, vais andar muito ocupado nos próximos quatro (ou, esperemos, oito!) anos. Mas peço-te que não desiludas as expectativas deste mundo que hoje sorri ao ver-te eleito. Devolve-nos os Estados Unidos que aprendemos a amar e admirar (e, secretamente, por vezes até a invejar) deste lado do mar: aqueles cuja independência inspirou um século de liberdade e iluminação no Velho Continente, a começar na Revolução Francesa; aqueles que nos libertaram da tirania opressora do nazismo e financiaram a reconstrução do nosso continente; aqueles que, bem ou mal, souberam manter o diálogo com os visionários que abriram a porta à queda do comunismo na Rússia e acolher no seio da comunidade internacional as novas democracias saídas detrás da Cortina de Ferro; aqueles que nos fizeram abrir os olhos de espanto ao descobrir a electricidade, inventar o automóvel, aperfeiçoar o avião e levar a Humanidade à Lua e, em breve, para lá dela.

Um grande abraço deste teu admirador confesso,
João N.

8 opiniões sobre “Carta aberta a Barack Obama”

  1. Oh João, ainda o Barak não fez nada (nem para o bem, nem para o mal) e já está a desejar um segundo mandato? Ui! Espero que as expectativas que criaste se concretizem. Antes Obama do que McCain, mas acredito sinceramente que entre as outras candidaturas (sim, não eram só duas…) havia gente ainda mais honesta, e menos dependente de Lobbies (como calculas, não foram os pobres da América que financiaram a mais cara campanha eleitoral de sempre). Abração, rapaz!
    Rui Vasco

  2. @pedro não me dês ideias, rapaz… 🙂

    @Rui Vasco: tenho é medo do que possa vir depois de Obama! E sejamos realistas: não deve ser este século que os Estados Unidos terão um presidente que fuja à dualidade Democratas-Republicanos… Pelo menos Obama não tem, a título pessoal, o envolvimento empresarial que tinham os Bush pai e filho (para não falar em Dick Cheney!). Com os lobbies temos que viver – são um dos cancros da democracia.

    Quanto ao segundo mandato, era apenas uma piada – e dupla: por um lado, para implementar todas estas medidas quatro anos talvez não cheguem; por outro, algumas podem funcionar como chamariz para o que motiva qualquer político que se preze: a sua reeleição. Não tenho grandes ilusões, Rui: Obama não será diferente neste aspecto.

  3. Claro que tens de a traduzir!
    Isso será meio caminho; depois… bem, depois só falta o código postal, mas esse é mais fácil 😉

O teu comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: