Mountains of Burma

Corria o ano de 1990 e a música fluia-me nos ouvidos ao ritmo dos álbuns gravados e trocados nas aulas da faculdade. Entre o primeiro CD importado de uns então desconhecidos Pearl Jam, a rara beleza do único disco dos Temple of the Dog (que ainda hoje anda permanentemente comigo no carro), a fugaz mas meteórica carreira dos Mother Love Bone e os primeiros sons de Nirvana ou Offspring, chegou-me às mãos uma cassette (se já não se lembram o que é, procurem na Wikipedia) de uma obscura banda australiana: os Midnight Oil. A beleza da quinta faixa hipnotizou-me, mas não consegui decifrar o significado da misteriosa letra. Não havendo internet, procurei offline o significado da magnífica “Mountains of Burma”: o que li rasgou-me o coração. Dois anos antes, uma grande mulher (de que já falei no Café, aqui e aqui) vencera uma eleição num longínquo país asiático, mas o regime militar que montara aquela votação de fachada recusou-se a aceitar o resultado e respondeu aos protestos populares que se seguiram com um banho de sangue, deixando três mil mortos nas ruas de Rangoon. Anos mais tarde, o filme de John Boorman colocou imagens na minha cabeça, no local onde durante meia década houvera apenas palavras.

Mas nem o Nobel da Paz atribuído em 1991 a Aung San Suu Kyi travou o regime da Junta militar, que trocou o nome do país de Birmânia (Burma em inglês) para Myanmar, e o da capital de Rangoon para Yangon: o país continua a ser tristemente conhecido como um dos vértices do triângulo dourado do ópio asiático, onde graça o medo, o trabalho escravo (tantas vezes de mulheres e crianças), a prostituição infantil, e onde qualquer tentativa de dissidência acaba inevitavelmente da mesma forma que os protestos democráticos de 1988.

O recente levantamento dos monges budistas reacendeu o meu fascínio pela história e geografia daquele remoto país encravado entre a Índia, a China e a Tailândia. E a esperança de que o dia em que o povo birmanês será finalmente livre, em que Aung San Suu Kyi poderá deixar a prisão domiciliária a que se encontra confinada há quase duas décadas e em que poderemos finalmente ver com os nossos olhos as “Mountains of Burma” chegará em breve. Lembro-me de Timor e dos que diziam que nunca se conquistaria a independência. E daqueles gloriosos dias do Verão de 1999 em que vimos o impossível acontecer perante o olhar boquiaberto do mundo.

É já daqui a três dias que a blogosfera internacional planeia unir-se em solidariedade com a Birmânia. O Café da Manhã antecipa desde já a data com este post, porque um dia não chega para calar a repressão.

Obrigado pelo aviso à navegação, Ricardo.

Ah, e já me esquecia: Mountains of Burma

The tucker box is empty now
The heart of Kelly’s country cleared
The gangers on the southern line
Like the steam trains have disappeared
Pelicans glide
Miracles up in the skies
We vote for a government
With axes in its eyes

Mountains of Burma
The road to Mandalay
In the mountains of Burma
Light years away
Mountains of Burma

Will the sons of Solidarity
Still march on May Day

Will the sisters of the seventies
Still fight for equal pay

There’s no-one on the Reeperbahn
No more blankets handed out for land
We feed an economy
It’s got blood on its hands

Mountains of Burma
The road to Mandalay
Mountains of Burma
Light years away
In the mountains of Burma
The road to Mandalay
In the mountains of Burma
Hope you’re light years away

Pack your bags full of guns and ammunition
Bills fall due for the industrial revolution
Scorch the earth till the earth surrenders

Soldiers of armies
Storm empty fields
In a traveller’s trance
On the way to the high frontier
Sleepwalkers stumble
Cable cars run aground
Imaginary enemies
Form high above the clouds

In the mountains of Burma…

Um pensamento em “Mountains of Burma”

O teu comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: