Turquemenistão sem hospitais

A notícia é do Público, mas não encontrei o artigo online. Assim que possível coloco aqui o link.

Presidente do Turquemenistão acaba com hospitais na província – Quem ficar doente na antiga república soviética deve viajar até à capital, a única cidade com serviços médicos

Alexandra Prado Coelho

O Presidente do Turquemenistão, Saparmurat Niazov, anunciou no início do mês uma reforma radical do sistema de saúde naquela antiga república soviética da Ásia Central: todos os hospitais regionais vão ser encerrados e os doentes de todo o país devem deslocar-se à capital, Ashgabat, quando precisarem de tratamento médico.

O objectivo, explicou Niazov, é garantir um serviço de qualidade num país onde há falta de médicos. “No sistema de saúde”, disse o chefe de Estado, “todos os hospitais devem ser em Ashgabat, e estão a ser construídos mais aí neste momento. Na província serão abertos centros de diagnóstico. As pessoas que vão a esses centros, devem pagar – sem pagamento não se pode esperar nada – e alguém lhes passará uma receita. Na capital podem ser tratados por médicos. Os hospitais regionais não são necessários”.
“Porque é que devemos desperdiçar bons especialistas médicos nas vilas quando podiam estar a trabalhar na capital?”, interrogou-se o dirigente que se intitula também Turkmenbashi, ou Pai dos Turquemenos. Curiosamente, o anúncio do Presidente coincidiu com uma operação aos olhos a que teve que ser sujeito e para a qual mandou vir cirurgiões da Alemanha.
A directora do Projecto Turquemenistão do Open Society Institute, Erika Dailey, considerou as declarações de Niazov como das mais chocantes feitas até hoje pelo ditador turquemeno. “Se esta ordem verbal for aplicada significa literalmente uma sentença de morte para pessoas com doenças graves”, disse Dailey à Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade.
O Turquemenistão é um país grande, bastante maior do que a Alemanha, e os transportes e condições de viagem são difíceis. Os turquemenos interrogam-se agora sobre o que fará uma pessoa que sofrer, repentinamente, de um ataque cardíaco ou uma crise de apendicite. Uma viagem de centenas ou milhares de quilómetros até à capital? Quais serão as hipóteses de chegar com vida?
“Vivo em Gaz-Achak, no leste do país, e para chegar hoje à capital fiz duas horas de carro até Kerka, onde apanhei um avião que voa até Ashgabat duas vezes por semana”, explicou um empresário turquemeno ao Institute for War and Peace Reporting (IWPR). “Se sofrer uma apendicite ou um ataque cardíaco só conseguirei chegar a um cirurgião na capital em dez horas – e só em alguns dias da semana”.
Uma mulher que mora perto de um hospital de Ashgabat contou também ao IWPR que muitas pessoas vindas da província dormem ao relento junto do hospital onde os familiares estão internados. É frequente virem bater-lhe à porta para pedir dinheiro ou abrigo.
Os custos de uma eventual deslocação são da responsabilidade do paciente – daqueles que tiverem dinheiro para isso, o que deverá ser uma minoria num país onde a maioria da população vive praticamente na miséria.
As medidas agora anunciadas são já a terceira fase do que parece ser uma política de desmantelamento do sistema nacional de saúde. Há dois anos, cerca de 12 mil funcionários médicos foram despedidos, e o mesmo aconteceu no ano passado a outros 15 mil, substituídos entretanto por soldados na recruta.
Alguns médicos demitiram-se voluntariamente, como Svetlana Ivanovna que, conta ao IWPR, não concordava com as “políticas de saúde iluminadas” do Presidente Niazov, entre as quais o uso de remédios improvisados ou medicina popular, como cinzas de madeira em vez de anti-sépticos para esterilizar as feridas.
Com o desaparecimento dos médicos da velha escola, sobram, mesmo nos hospitais da capital, os formados no instituto médico estatal depois da independência do país, em 1991, e que, na sua maioria, não compreendem os termos em latim usados na medicina internacional.

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